Acionistas aprovam compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões com reforço do Pentágono
Aporte do Departamento de Defesa dos EUA sobe para US$ 750 milhões e destrava a última condição do negócio, enquanto a Vale segue sem decisão sobre entrar no setor de terras raras
Os acionistas da USA Rare Earth aprovaram, em assembleia realizada na sexta-feira (28), o aumento de capital necessário para viabilizar a compra da Serra Verde Mineração, dona da mina Pela Ema, em Minaçu (GO). A transação, fechada em US$ 2,8 bilhões (R$ 14,5 bilhões, segundo o O Globo), havia sido anunciada em abril e agora recebe o aval formal dos investidores da mineradora americana.
O negócio combina US$ 300 milhões em dinheiro com cerca de 126,8 milhões de ações da USA Rare Earth. Na segunda-feira anterior à assembleia, a empresa já havia anunciado um reforço decisivo no financiamento: o Departamento de Defesa dos Estados Unidos elevou sua participação de US$ 500 milhões para US$ 750 milhões em um veículo criado para capitalizar a operação, batizado de US SIIE. Segundo a CNN Brasil, esse aporte elimina uma das condições que ainda travavam o fechamento da compra. Há ainda uma linha de crédito adicional de US$ 500 milhões disponível e um compromisso do governo americano de adquirir ao menos US$ 300 milhões em terras raras da futura operação ao longo de cinco anos. No total, a capitalização levantada para a compra já soma US$ 1,55 bilhão.
A Serra Verde opera a mina Pela Ema, hoje a única fora da Ásia em produção comercial dos quatro principais elementos de terras raras magnéticas: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A produção começou em 2024 e ainda é modesta, cerca de 100 toneladas de óxidos de terras raras por ano, mas o plano da USA Rare Earth é multiplicá-la para cerca de 6,4 mil toneladas anuais até o fim de 2027. Do volume projetado, 42% será ítrio, 22% neodímio-praseodímio e 32% térbio e disprósio, os elementos mais escassos e mais usados em ímãs de alto desempenho. O objetivo declarado da operação é garantir uma fonte de terras raras fora da China e integrar a produção goiana a uma cadeia de suprimentos EUA-Reino Unido para fabricação de ímãs e materiais.
O avanço da Serra Verde contrasta com a cautela da maior mineradora do país no mesmo setor. Segundo o InfoMoney, a Vale ainda não tomou nenhuma decisão de investimento em terras raras.
O CEO Gustavo Pimenta afirmou que a empresa "está sempre estudando outras commodities" e que terras raras e lítio "fazem parte do estudo", sem decisão de investimento até o momento. A companhia avalia recuperar terras raras e ouro a partir de rejeitos de mineração, projeto ainda em fase preliminar: o vice-presidente executivo de assuntos técnicos, Rafael Bittar, disse estar "cautelosamente otimista" com os resultados iniciais, mas sem viabilidade econômica comprovada. A Vale já opera iniciativa semelhante na barragem do Gelado, no Pará, desde 2023.
Há pressão do governo brasileiro para que a Vale acelere esse movimento. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, disse pretender discutir com a mineradora oportunidades em lítio, cobre e terras raras. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou ter "certeza absoluta" de que a Vale vai avaliar grandes projetos além do minério de ferro. Ainda assim, a companhia mantém o foco declarado em minério de ferro, cobre e níquel, os segmentos onde já tem escala e liderança consolidadas.
O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, estimada em cerca de 21 milhões de toneladas, o equivalente a 23% do total global, segundo levantamentos setoriais amplamente citados por veículos especializados. Apesar disso, o país historicamente processou pouco esse potencial: a exploração de terras raras no país ficou represada por décadas, associada a depósitos de nióbio e fosfato em locais como Araxá (MG) e Catalão (GO). A China concentra hoje a maior parte do refino mundial, o que tem levado Estados Unidos e União Europeia a buscar ativamente fornecedores alternativos, com o Brasil surgindo como um dos poucos países capazes de oferecer escala fora do eixo asiático.
O contraste entre os dois movimentos ajuda a entender o momento do setor no país: enquanto o capital e a demanda do governo americano destravam a expansão da Serra Verde, a maior mineradora brasileira permanece na fase de estudos, dependente de pressão do próprio governo brasileiro para avançar. Para quem acompanha o setor mineral, o próximo marco a observar é duplo: o fechamento formal da compra da Serra Verde pela USA Rare Earth, que ainda depende de aprovações regulatórias, e um eventual anúncio de investimento da Vale em terras raras, que até agora não saiu da fase de estudo.
Se a expansão da Pela Ema se confirmar no ritmo projetado, a produção da Serra Verde vai saltar mais de 60 vezes em pouco mais de um ano, um volume que ainda não compete com a escala chinesa, mas que representaria a maior operação de terras raras fora da Ásia em produção comercial.


